Um Quintal em Lisboa

Thursday, November 04, 2004

Um Quintal em Lisboa

PONTO NEGRO,
CAVALEIRO ANDANTE


Espírito de Natal

Era este o título de uma das mais belas histórias em banda desenhada que li na minha infância e, se bem me recordo, um dos primeiros álbuns de BD editados em Portugal, pela Editora de O Mosquito. Lembro-me de o ter comprado numa véspera de Natal por 2$50 (as minhas economias de um mês). Li-o naquela mesma noite, de um fôlego, e fiquei sonhando o resto daquele dia. A impressão dessa história ficou-me por muito tempo.
Um desenhador muito pobre vivia numa trapeira. Num certo Inverno muito frio, com o último dinheiro que tinha, comprou um tinteiro de tinta-da-china, para terminar os desenhos de uma história que pretendia vender ao editor e, com esse dinheiro, comprar carvão para se aquecer e comida para se alimentar.
Trabalhou o artista durante todo aquele dia, até alta madrugada, acabando por adormecer sobre o último desenho. Ao adormecer, porém, entornou o frasco da tinta sobre o papel e, enquanto o desenhador dorme, anima-se o borrão, que toma a forma de um Cavaleiro Negro, com sua armadura e lança, aprestando-se para viver a sua própria aventura, agora livre da pena tutelar do artista, escravo da vontade do editor. E é esta aventura que o artista sonha, enquanto dorme, que tornou, para mim, aquela história tão bela como invulgar.

Mas porquê, agora, passado mais de meio século, me vem à memória a história desse Ponto Negro, pobre e inofensivo borrão de tinta? Sem dúvida, por alguma razão mágica deve ter sido, pois há sempre alguma magia na criação artística. E desta vez acontecia comigo a estranha transposição da sombra recortada do cavaleiro negro.

Descobri então que existia também em mim uma certa semelhança com o herói daquela estória, pois, tal como o cavaleiro andante se libertara da tutela do artista, também outro idêntico e misterioso borrão viria a interferir no meu futuro. Não através de um sonho, mas da prosaica realidade que haveria de modificar, totalmente, aquilo que poderia ter sido o meu destino. Para pior? Para melhor? Só Deus o sabe, pois só Ele escreve direito por linhas tortas. E aqui, bem posso dizer que a mão que escreve a história é, verdadeiramente, a mão de Deus.
Não me resta hoje qualquer dúvida acerca da intervenção da Vontade Divina neste acontecimento que tanta influência teve no desdobrar das páginas do livro da minha vida.

Após efectuar a educação primária, o meu destino estava traçado. Como primogénito de uma família de boas tradições mas fracos recursos, atingida pela fatalidade da maior crise global do Século (estávamos em 1933), eram ténues as perspectivas de um futuro risonho.
Educado na mais completa e consequente doutrina da Igreja Católica, a via natural para a minha educação seria a entrega da minha humilde e frágil pessoa à Santa Madre Igreja que, pela via de um dos seus institutos educacionais, ou seminários, trataria de continuar a minha educação, não restando para os meus pais senão aguardar que eu fosse um filho obediente, diligente e cumpridor.
Teria pois de seguir esse destino que eu não escolhera, mas que também não rejeitara. E como rejeitar o que se nos impõe pela via paterna, quando se tem dez anos?!
Já na aldeia, onde vivi em criança, a minha educação religiosa havia sido entregue aos cuidados do bondoso Padre João, para que seguisse, diligentemente, os santos preceitos, aprendendo satis tempore o quanto satis de latim e aprofundando a catequese. E é nessa altura que algo de profundamente perturbador acontece.
Logo a seguir ao nascimento e morte quase imediata de um primeiro irmão, minha mãe ficou profundamente afectada no seu estado de saúde e meu pai resolveu pedir ajuda aos meus padrinhos para que a minha vida e educação pudessem prosseguir com a possível normalidade.
O meu padrinho Ilídio, que aqui recordo com a maior saudade, era então, naturalmente, católico; mas na altura dos acontecimentos que relato, já no meio da sua vida, ao regressar de Moçambique e após a morte de sua mulher (minha madrinha), que ele muito amava, entrou em profunda depressão, e talvez devido ao suporte moral que lhe deram os amigos luteranos com quem convivera longamente na África do Sul, resolveu aderir à doutrina evangélica da Igreja Baptista. Renunciou ao nome de família e adoptou, como apelido nominal, o da nova Igreja em que professou.

Isso não o impediu de cumprir escrupulosamente os deveres para os quais a Igreja Católica o havia convocado no acto do meu baptismo. Encarregou-se ele, prontamente, de assumir a responsabilidade da minha educação e fê-lo com o maior empenho e carinho, durante o período da doença de minha mãe, em que o tive tão próximo de mim como a um verdadeiro Pai.
Empenhou-se em que a minha educação prosseguisse seriamente, segundo os cânones e preceitos da Igreja Católica e, apesar dos preconceitos que na época subsistiam - vinha longe o ecumenismo Cristão do Concílio Vaticano II - a minha ligação com a Igreja Católica nunca foi quebrada.
Devo aqui dizer que, também minha avó, já por essa altura bastante velhinha, não deixou de vigiar esses meus passos na Igreja.
Todavia, não posso deixar de reconhecer que, apesar da idade, o convívio entre gente de duas Igrejas, teve alguma influência no meu desenvolvimento mental. As práticas da Caridade para com os pobres e as da oração antes e depois das refeições, foram, entre outros, actos que muito me marcaram.
Eu gostava, especialmente, das leituras da Bíblia que o meu padrinho fazia ao serão, em voz alta. Estas leituras que eram feitas na presença de toda a gente da casa, familiares ou não, depois de servido o jantar, não eram seguidas de qualquer comentário. Se era Inverno, pouco depois, ia-se para a cama; se era Verão, desfrutava-se o fresco da noite na ampla varanda do terraço, onde se contavam histórias e, por vezes se cantava, ao som de uma viola ou guitarra, pois sempre por lá havia um ou outro primo recém-chegado do Brasil que tinha esses dons.
Nas orações semanais, porém, a exegese bíblica tomava o seu lugar nas noites de sábado e era feita pelo bispo da Igreja de Leomil na grande sala da casa, toda caiada de branco, com frisos de papagaios azuis - porventura reminiscências de uma cultura afro-brasileira -, que pareciam voar com a ondulação da luz oscilante de dois grandes candeeiros de petróleo. Mas toda aquela prática evangélica do culto a Deus, só tinha lugar após eu ter ido para a cama.

Cerca de dois anos depois, regressei a Lisboa e passei a frequentar a Igreja de S. Nicolau onde, dados os meus conhecimentos do catecismo, comecei a ajudar na catequese.
O cónego de S. Nicolau, considerando-me, certamente, preparado para entrar no Seminário, providenciou para que tal viesse a suceder. Era, então, foi necessário requerer ao Cardeal Patriarca, através de petição formal, escrita pelo meu próprio punho, para que Sua Eminência lavrasse o despacho de anuência e ficasse, desse modo, aceite como membro dessa academia de estudantes das ciências de Deus e dos homens.
Chegado o dia de apresentar o requerimento, fui à presença do cónego o qual, depois de me interrogar sobre mais algumas questões de doutrina, me fez sentar num dos cadeirões da sacristia, em frente de pesada mesa de pau-santo, sobre a qual se encontravam dois imensos tinteiros de latão amarelo com finas penas de prata e aparos de aço pousados sobre o descanso.
O clérigo pôs na minha frente uma impecável folha de papel almaço azul de 25 linhas, um mata-borrão cor-de-rosa e, ao lado, um rascunho de requerimento, que me mandou copiar com todo o cuidado e com a melhor caligrafia possível.
Nunca fui muito bom calígrafo, e muito menos nessa altura, mas esforcei-me conscienciosamente por cumprir com todo o rigor aquela tarefa que levei a cabo com êxito ou, pelo menos, assim o julgava.
Terminado o requerimento, entreguei-o ao cónego, que me mandou para casa com a recomendação de estar preparado, pois poderia partir a qualquer momento para cumprir o meu destino. Assim fiz.

Os dias foram passando e, quando a ocasião chegou, o meu pai foi chamado a S. Nicolau para falar com o reverendo. Aguardei ansioso o seu regresso e, quando ele chegou, foi o desapontamento. Tinha acontecido alguma coisa imprevista que impediu que a decisão favorável tivesse sido tomada. O requerimento que deveria ter sido enviado ao Patriarcado estava manchado com um enorme borrão de tinta, pelo que se tornava necessário fazer outro.
Num dos dias seguintes lá voltei a S. Nicolau para refazer aquela petição, mas desta vez sem grande entusiasmo, por ter de repetir aquela extensa caligrafia. Tudo se processou de forma idêntica à anterior, feito o que, voltei para casa.
Passou mais de um mês até que o cónego voltasse a chamar o meu pai. E quando isso aconteceu foi para lhe anunciar que o seu filho não mostrava qualquer vocação para a vida eclesiástica, pois que o requerimento tinha aparecido, outra vez, com um grande borrão de tinta.
Aquele Ponto Negro, decorrido tanto tempo, regressou à minha memória quando, numa véspera de um Natal, entrei na igreja de S. Nicolau, para orar pelos meus pais.
Após a oração, sem qualquer razão ou aparente porquê, senti uma vontade imperiosa de rever a sacristia com a enorme mesa e seus tinteiros. Procurei um jovem zelador que me conduziu à presença do prior.
Numa conversa sem pressas - palavra puxa palavra -, acabei por confessar ao bondoso e amável prior a verdadeira razão que ali me levou, e a confidenciar-lhe, com mágoa, algo que nem sequer pode ser motivo de confissão, mas antes de lamento: é que, eu, nunca deitara, pelo menos de modo deliberado e consciente, qualquer borrão em nenhum dos requerimentos, estando ainda hoje por saber como e porquê aquilo acontecera.
Esta estória bem poderia ter ficado por aqui, e seria apenas mais uma narrativa para os meus netos, das muitas coisas estranhas que comigo se passaram ao longo da vida e que gostaria de lhes contar. Mas não!
Decorridos agora tantos anos sobre aqueles factos, aconteceu-me necessitar de uma certidão de baptismo cujo registo se deveria encontrar num livro arquivada no Cartório Paroquial de S. Nicolau, uma vez que este cartório se tornou depositário do arquivo da antiga Capela de S. Julião, onde, segundo os meus pais, eu havia sido baptizado.
Qual não foi, porém, a minha estupefacção, quando, após exaustivas pesquisas, fui informado de que, dos registos existentes naquele cartório nada constava. O livro de registo dos baptismos do ano em que o meu se dera, tinha desaparecido!
E dou por mim a interrogar-me, com mais espanto agora do que então: haverá alguma razão oculta para estes acontecimentos? Certamente que nada existe de paranormal, mas a estranheza daqueles insólitos acontecimentos tem-me perseguido, qual cavaleiro nascido de um Ponto Negro, ao longo desta já longa vida.
Não existe hoje em mim qualquer trauma ou resquício de desgosto resultante dos referidos acontecimentos. Afinal, a pena com que escrevi não era a minha pena. Em questões de escrita, há muito que é sabido que Deus escreve direito por linhas tortas.
O aparentemente grave problema da certidão de baptismo, acabou por ser resolvido pela fórmula canó-nica habitual adequada a tais casos, ou seja, recorrendo às testemunhas que ainda foi possível encontrar e à boa-vontade de um sacerdote que para o efeito teve de obter o consentimento da respectiva diocese.

Fernando da Costa Quintais

FERNANDO DA COSTA QUINTAIS


APRESENTAÇÃO de UM QUINTAL EM LISBOA

Depois de ter concluído para impressão A Fonte das Recordações, pelo Natal do Ano 2000, dediquei-me a compilar estas páginas dos mesmos cadernos de onde saíram as daquele livro.
Estava ali O Ponto Negro, inspirado na banda desenhada que tanto me encantou na minha infância, pois aquela estória (como agora se diz), estava revestida do Espírito do Natal.
Senti, então, que esse Espírito devia ser partilhado, e a melhor forma que me ocorreu foi, também, a de publicar esta e outras estórias concebidas sob o domínio dessa atmosfera mágica que rodeou a minha infância e adolescência.
Pretendi também que este texto fosse, tanto quanto possível, o resultado daquele estado lúdico que me induziu, já em idade madura, à escrita dessas recordações ou que, pelo menos, fosse inspirado por elas.
Acredito num Guia-Condutor - esse chamado Espírito do Natal - cuja presença me acompanhou ao longo dos dias e noites em que escrevi estas crónicas, a maior parte de tempos idos e outras mais recentes que, pela ordem natural que regula todas as coisas neste mundo, serão em breve, também, apenas recordações: - estórias.
Como não posso prender o passado na cadeia do tempo, nem dar pressa ao futuro, a única possibilidade que me resta para entender este nosso Mundo, reside na minha capacidade de viver cada momento da minha vida, dando corpo ao grande mistério da escrita, que é o de tudo transpor para o agora.
Um Quintal em Lisboa, foi o título que me pareceu mais adequado à minha própria vivência que se foi desenrolando numa espécie de labirinto com paredes de cristal em que cada dia me fui perdendo, sem contudo deixar de avistar sempre o imenso ágora da minha circunstância, que é a cidade babilónica da qual sempre pretendi encontrar a alma, sempre em dúvida de o conseguir, e onde julguei que poderia construir um pequeno Quintal para nele plantar uma ou duas nespereiras e um limoeiro, como em qualquer quintal de Lisboa que se preze da sua origem.
Nas Histórias Marginais, de Sepúlveda, pode ler-se que «a palavra escrita é o maior e o mais invulnerável dos refúgios, porque as suas pedras são ligadas pela argamassa da memória. Temos de nos agarrar à palavra como único esconjuro contra o esquecimento, de contar, de nomear os factos [...] de fazer da vida um método de resistência contra o olvido[...]».
Este livro é também a resposta, agora imperativa, ao desafio que me lançou o meu querido amigo e mestre Henrique Barrilaro Ruas, que possuía o raro conhecimento da força daquele aforismo, narrar é resistir, quando escreveu a Carta-Prefácio para o meu livro A Fonte das Recordações.
Devia a esse amigo e companheiro de tantos anos de lutas por um Ideal Comum, uma última homenagem - e foi este o modo mais consentâneo com aquilo que penso possa servir de homenagem a alguém com uma alma tão preciosa como a do Henrique, que julguei inadiável escrever este livro - porventura um modo de devolver à Cidade o muito que dela recebi.


Ver também: http://fontearcada.no.sapo.pt


Um Quintal em Lisboa

AS MATRÁCULAS
Agora que Portugal, que sempre foi europeu, e durante tantos séculos um dos mais civilizados países do continente, começa a sentir que os hábitos transplantados de alguns países do norte de tradição luterana e calvinista, vêm influenciar a vivência do nosso povo, é necessário reavivar a memória das nossas tradições, especialmente as de carácter festivo, tão injustamente esquecidas.

O Tempo Quaresmal e a Páscoa eram, naquela aldeia da Beira Alta onde vivi a minha infância, o tempo privilegiado da Festa. Tinha um carácter solene, quase sacral, o período que vai das Cinzas aos Ramos.
Tias e avós envolviam-se em pesados xailes de lã escura para se reunirem na velha igreja românica, de paredes cinzentas, geometricamente talhadas em granito, com portais abertos em solenes e elegantes ogivas de arcos abatidos, com a grande nave central de tecto em forma de maceira, cobrindo em magnífico docel o templo e a capela-mor de talha barroca, recamada com finíssimas folhas de ouro.
Naquela época, todas as imagens se encontravam veladas por amplos panos roxos, e nem a voz dos sinos podia quebrar a solenidade do Tempo da Paixão, em que o espaço era preenchido pelos murmúrios quase inaudíveis das orações, cuja ressonância se confundia com os sons suavíssimos da Natureza envolvente.
O aroma forte do incenso derramado em profusão pelos reluzentes turíbulos de prata, saturava o ar, alojando-se em cada fibra dos lenços pretos de merino ou gorgorina e nas malhas dos xailes de macia lã que, nas noites ainda frias do início da Primavera, serviam para agasalhar nos berços os pés das crianças, enquanto dormiam.
Era assim que em cada dia, ao cair da tarde, em que nada podia quebrar o silêncio canónico dos campanários, se retiravam dos caixotões da sacristia as matracas, para anunciar os rituais próprios do Tempo.
As matracas são tábuas pendentes de um punho de madeira ou ferro onde, de cada lado, quatro ou seis batentes livres, de ferro ou outro metal, oscilam e chocam contra a madeira seca, quando se roda o punho, provocando um som, cuja onomatopeia de TRAC-MATRAC, TRAC-MATRAC, é reconhecida ao longe pelos fregueses e paroquianos, quando o punho é accionado de modo vigoroso
Naquele tempo era importante para os rapazes da aldeia chegar com antecedência à sacristia, alcançar os caixotões onde se encontravam guardadas as matracas e, logo que o padre fazia sinal, agarrar nos instrumentos e correr pela aldeia, cada qual para seu ponto estratégico.
Os locais eram escolhidos pela qualidade de propagação do som e do eco,17 de onde, abanando freneticamente a madeira, o ar se enchia com aquele estranho som ritual: TRAC-MATRAC, TRAC-MATRAC...
As velhas, sofrendo sem queixumes os seus ancestrais reumatismos, arrimavam-se aos patins das entradas das casas e diziam umas para as outras: Já tocam as matráculas!
E aos poucos, as mulheres e as crianças agrupavam-se ao longo dos caminhos, do Cabeço à Terra Quente, envolvidas nos longos xailes e encaminhavam-se para a igreja, atrás dos rapazes que sacudiam energicamente as matráculas, num verdadeiro frenesim.
Depois, no Templo, entre nuvens de incenso que reflectiam a luz dourada dos altares iluminados por inúmeras velas de cera virgem, começavam as orações num acentuado murmúrio gótico, que ascendia e se confundia com o dos regatos que corriam a caminho dos lameiros, únicos sons que, àquela hora vesperal, quebravam o recolhimento e o silêncio.

Fernando da Costa Quintais,
no Livro A Fonte das Recordações, Ed. Ano 2000